quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Sobre conceitos, preconceitos e palavrões (ainda)

Existe algo interessante quando criticamos arte em geral, uma espécie de código de conduta, de bons modos, que passeiam entre a crítica voraz (e por vezes vazia) feita por entendidos, até aquela feita por um leigo, sem pretensão alguma de que a opinião seja debatida ou estudada. Algo tão superficial como "o bife está duro" que não deixa dúvida, não requer nenhum tipo de contraponto. Resumindo: ela não tem continuação. Termina no ponto final. É sobre essa que desejo falar.
Por exemplo, é perfeitamente permitido, ao ouvir um pagode, qualquer um, pois são todos iguais, afirmarmos:
- Que música feia. - Ou sairmos do cinema com aquela sensação de dinheiro posto fora e, desanimados, comentarmos:
- Que abacaxi. - Qualquer uma das afirmações podem (e devem) sofrer algum contraponto, uma réplica, mas certamente de maneira também informal, do tipo "Áh, eu gostei".
Mas, arrisque-se e experimente fazer algo parecido dentro de um museu, frente a um quadro qualquer. Pare, respire fundo e diga:
- Quadro feio! - Pronto, somente isso. Garanto que o mínimo que irá ouvir é algo como "tente fazer igual", porque, fique certo, dirão que você não entendeu o que o artista quis representar, que não captou a mensagem ou que não entende absolutamente nada de arte.
É estranho. Se eu não gosto do pagode, ninguém dirá que eu não consigo "fazer" uma música daquelas. (E nem gostaria) Mas, nas artes plásticas, este detalhe parece desautorizar. Também acredito que não precisa ser um estudioso musical, um maestro, para ter o gosto. Mais ainda: se o autor tinha levado um par de chifres ou fez em uma mesa de bar regado a muita cerveja, definitivamente não interessa para minha apreciação. Então, porque posso desgostar de uma música (ou filme) sem maiores explicações e não posso fazer isso com as artes plásticas, ou, sendo mais abrangente, com a arte contemporânea?
Afirmo, sem medo: existem alguns trabalhos considerados artísticos, que foram expostos na Bienal do Mercosul, por exemplo, que são horrorosos. Inclusive tenho uma maneira bem sensata de analisar (respeitando tamanho e forma, naturalmente) com uma simples pergunta:
- Você colocaria em sua sala?
Tudo isso para uma análise sobre o palavrão do Inácio. Não interessa, por exemplo, se um cozinheiro quando criança tenha vivido no meio do lixo sem higiene alguma. A partir do momento que ele evoluiu, cresceu, assumiu uma profissão, tem que respeitar o novo posto. Seria aceitável que ele não lavasse as mãos por ter vivido assim em uma favela? Você aprovaria sua comida feita sem a higiene necessária porque a infância dele foi assim? Pois digo o mesmo ao Inácio. Pouco me interessa sua origem e o quanto estudou ou deixou de estudar. Interessa que na função que ocupa, falar palavrão porque "é do povo" é o mesmo que o cozinheiro não lavar as mãos. Sempre pensei que apenas dizer que "nome feio" é feio (e por isso não gosto, como alguns trabalhos das artes plásticas) seria o suficiente, mas, pela repercussão fantástica que o tema teve, fiz este texto.
Sabe o que mais? Que bosta mesmo. Cansei disso. Ponto final.

PS. Acima, uma obra vendida por alguns milhões de dólares do inglês Damien Hirst.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Merda, merda e merda.


Pois é! O Inácio, sabe, disse merda. Se meu filho, estudante de terceira série, disser isso, certamente eu o repreenderei. É simples:
- Meu filho, não fale assim. É feio.
Mas eu devo estar maluco. Não tem nada de feio. Se o presidente da nação, a autoridade máxima, o comandante em chefe das forças armadas - ou seja, o cara que tem a caneta e a metralhadora na mão - diz, porque um menino sapeca não poderia? Eu ando mesmo desatualizado. Estou - ainda bem - ficando velho. Dizer merda - merda! - não tem nada de errado. Eu é que sou um conservador esquisitão cheio de manias. Fico pensando que as pessoas que não concordam que se fale assim também assistem televisão e, talvez, possam não gostar de ver o presidente falar o que na escola seria condenado. Mas que merda, como sou antiquado. Provavelmente eu seja o cara de esquerda mais conservador que exista.
E tenho alguns dogmas. Por exemplo: se eu for visitar um convento, freiras, madre superiora, essas coisas, eu não direi merda. Se eu for em uma escolinha infantil. Bebês, crianças correndo, coisas assim, também não direi. Entretanto, se estiver no futebol - por falar nisso, que merda, os caras entregaram pro Mengo - eu digo sem problemas. Se estiver em um cabaré, com muita cerveja na cabeça, que merda, gostaria de dançar. Mas se estiver na televisão, onde as putas, as crianças, as freiras e todas as torcidas estiverem vendo? Não direi também, afinal, eu respeito a todos. Inclusive freirinhas (mesmo que não goste delas) e criancinhas.
Bem, como aqui não existem leitoras de conventos e nem crianças, que merda, estou novamente zangado. Tenho brigado incansavelmente com minha memória - não lembro bem porque - e, merda, ela tem ganhado todas. Lembro somente que sou antiquado e careta. Que tenho que me modernizar, mas não recordo a razão do meu mau humor. Se bem que ele é natural, meu companheiro matutino há alguns anos, e de confiança. Está sempre comigo, principalmente às segundas-feiras.
Mas, depois de ouvir o Inácio propositadamente falando merda, como fosse algo muito legal, algo merecedor de aplausos (ele ficou esperando e - pasmem - foi ovacionado ) fiquei não somente mal-humorado, mas muito mal-humorado. Muito mesmo.
Já ouvi músicas falando assim, peças de teatro usando da artimanha da vulgaridade para garantir algumas linhas nos jornais, bons e grandes autores usando do expediente e creio que haver problema algum. Mas, o senhor Inácio, em plena televisão? Desisto. Não concordo e, merda, acho uma baixaria desnecessária, apelativa e populista. Além de um gosto pra lá de duvidoso.
Falando nisso, lembrei a razão do mal-humor: as próximas eleições. As opções elegíveis são dignas do vocabulário do Inácio, porque, na verdade, são merdas. Nada além disso.
Não há nenhum, com chance de ser eleito, que não seja merda.
Nunca repeti tanto a mesma palavra em um mesmo texto, mas, como aconteceu com o Inácio, foi proposital. Que merda, então.
Merda, merda e merda.
Mais uma coisa: merda pra nós todos.
Merda! É o que teremos nas próximas eleições.
Melhor ir acostumando.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Teste Infalível


Volta e meia a notícia de que atletas mulheres precisam fazer teste de feminilidade invadem os jornais. Houve, inclusive, casos de tentativas de suicídio pela humilhação pública a que são submetidas, e não é para menos. Isso é sério. Tais exames são feitos por uma equipe de endocrinologistas, ginecologistas, geneticistas e psicólogos, além, é claro, de exames de laboratório. Seria desonesto um homem, ou quase isso, competindo com mulheres, pela constituição física distinta de ambos, então, faz-se realmente necessário a obtenção de provas.
Mas a união de quatro categorias profissionais e mais exames para isso? Quanto desperdício e quanta mídia trará, causando inegáveis prejuízos ao atleta, quando seria tão fácil e simples.
Às vezes, a ciência traz junto com a sabedoria os olhos fechados. Vou explicar, didaticamente, como descobrir se um ser é macho ou fêmea. É um teste simples que não deixa a menor dúvida. Cem por cento confiável e pode ser aplicado sem que o "alvo" sequer saiba, ou seja, com total privacidade, não causando prejuízos a ninguém.
É assim: convide a pessoa para uma conversa informal, faz com que ela sinta-se à vontade, e diga o seguinte:
- Poxa, que há com tuas unhas?
Pronto. Resolvido. Depois disso é só esperar alguns segundos e ficar cuidando o que o indivíduo fará. Se encolher os dedos, como fosse dar um murro, e virar a palma da mão (onde estarão os dedos dobrados) para olhar as unhas, bingo! É homem. Se além disso aproveitar para tirar um canto sujo e comprido com os dentes, é cabra macho, categoria bem macho. Caso estenda os dedos, force o pulso para o lado contrário do natural, estique os braços e levante até a altura dos olhos, sem dúvida alguma, é mulher. Se ainda falar algo como algo como "noooossa, tá horrível" ou torcer a boca para um dos lados em sinal de desaprovação, é mulher tradicional, destas que caminham cadenciadamente, e provavelmente charmosa. Se vacilar, fizer um pouco de cada um ou mesmo demorar algum tempinho a mais pensando, bem... aí tem coelho neste mato, ou outro bicho qualquer.
Não é simples? É. Além de preciso. Quanto constrangimento pouparia.
Por sinal, acabei de arrancar um pedaço de unha enorme, meio encardido, e fiquei brincando com ele entre os dentes da frente, fixando-o entre o vão, fazendo-o mexer-se, usando a língua como alavanca. Faz "cosquinha".
Nenhuma dúvida. Macho, categoria bem macho, com louvor.
Ufa!

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Brasil, meu Brasil. Merecemos isso?

Era uma vez um político (o mesmo que alguns anos atrás mentiu em rede nacional) que foi filmado recebendo cincoenta mil reais. Mas aí, no outro dia, veio a explicação: era para comprar panetones para os pobres.
Certo.
Outra filmagem divulgada, mostra três corruptos abraçados, três ladrões, larápios da pior espécie, daqueles que roubam os pobres, pois certamente o dinheiro público afanado não fará falta aos ricos, fazendo uma oração agradecendo a Deus e ao corruptor pelo roubo.
Certo.
Em uma outra ainda, aparece mais um sem-vergonha, desgraçado, filho de uma égua colocando o dinheiro da propina por todos os bolsos e pelas meias. Descaradamente. Logo adiante, afirmou que fez isso por questão de segurança.
Certo.
Aqui no sul, quatro ou cinco prefeituras compraram brinquedos com uma comissão de 10%. A filmagem mostra o negociador, representando a empresa fabricante, ofertando o percentual a um agente da prefeitura. Claro, a mesma empresa tratou de dizer que não autorizava ninguém a fazer isso. Mas, mesmo não autorizando e provavelmente sendo contra, afinal isso é um absurdo, um roubo, as vendas foram feitas. Fatura paga. Joguinhos legos para a criançada. Viva!
Certo.
Inácio, o senhor presidente deste país, foi aos jornais dizer que as gravações citadas acima, as primeiras, "não falam por si" e não o autorizam a fazer "juízo de valor". Claro, normal. Vários políticos pegam 50 mil reais e compram de panetones para os pobres e, tão bonzinhos eles são, escondem isso. Pedem até um pacote, uma bolsa, para não serem vistos e receberem as honrarias de tanta bondade.
No outro caso, como fazer juízo, também? Afinal, os rapazes oravam abraçados, lindos, fraternos. Deus é tão bom. E nosso querido presidente também.
No seguinte, o que há de mais por o dinheiro nas meias? Afinal, pessoas próximas, bem próximas a Inácio, não colocaram nas cuecas?
Tudo certo. Tudo perfeito. Tudo explicado. Como deve ser.
Tão boa a explicação, que até meus votos, pelo resto da vida, estão justificados.
Áh, e mesmo que não dê para fazer juízo de valor com as cenas explícitas de roubalheira, eu, irresponsavelmente, direi o que penso: ladrões, safados! Vocês são todos desonestos! Calhordas, párias, desgraçados. E desta vez nem fico com medo de ser acionado, afinal, existem tantos que doam cincoentinha em panetones e tantos que agradecem a Deus pela vida fácil e corrompida que levam, que não falo de um só, (exceto o Inácio, sabe? Aquele que foi sindicalista) falo de todos, infelizmente.
Se o Serra ou a Dilma ganhar, qualquer um deles, a única saída para o Brasil é Cumbica!



sexta-feira, 27 de novembro de 2009

O Sequestro do Metrô

Fui assistir, a convite de meu afilhado de dez anos, uma partida de futebol. Era sua estreia no mundo da bola e o menino estava exultante. Primeiro jogo da temporada, todos pareciam ter incorporado um espírito guerreiro, jogadores e torcida, pois o alvoroço era contagiante. Bumbos, cornetas, gritos antes mesmo dos atletas entrarem no gramado. Quando isso ocorreu, foi apoteótico. Os torcedores pareciam vikings embriagados no dia mais feliz de suas vidas. Uma festa faraônica .
Do campo, o garoto procurou-me na arquibancada - provavelmente não tenha tido dificuldades, já que eu era o único que levava um cartaz escrito "Zé Chulé, melhor que Maradona, melhor que Pelé" - e, mesmo não gostando muito do apelido, acenou com certo orgulho. Foi um momento muito importante.
Minutos depois, ainda com o jogo em andamento, ele senta no meu lado na arquibancada e imediatamente eu digo:
- Golaço, heim?
- Dindo, eu estava impedido e foi com a mão. - Eu, sem vacilar, respondo:
- Mas tirando isso, foi bonito. E mais, jogaste bem pra caramba. - Ele retruca, compreensivamente:
- Mas eu fui expulso na hora do gol, aos dois minutos do primeiro tempo, porque agredi o bandeirinha!
- Certo, mas que dois minutos, heim? Heim?
Pois mesmo sendo uma comparação horrorosa, foi mais ou menos a mesma reação que tive quando assisti a refilmagem de O Sequestro do Metrô.
A Columbia Pictures e a Metro-Goldwin-Mayer conseguiram, mesmo com Denzel Washington (excepcional ator) e Jonh Travolta (este disparadamente um dos maiores atores que o cinema já teve, principalmente em Pulp Ficcion de Tarantino) fazer um filme ruim, pobre, pior, muito pior, do que o primeiro Metro 123.
Nem os cem milhões de dólares, nem alguns bons efeitos e nem mesmo a boa fotografia foram suficientes para salvar a obra. Sabem por qual razão? O absurdo como foi dirigido. Jonh foi obrigado a ter uma interpretação medíocre. Algumas cenas beiram a patetice. É verdade que o enredo é fraquinho, o argumento ridículo, mas, precisavam deixar quase tudo no filme assim?
O diretor, Tony Scott, que já teve alguns sucessos incontestáveis em seu currículo, como Deja Vu e Estranha Obsessão, foi o maior responsável pela pieguice. Seguramente tornou-se candidato ao Troféu Framboesa mesmo com dois excelentes atores e um dinheiro nada pequeno. Ou seja, não há certeza de que bons ingredientes façam um bom bolo. Há de ter um detalhe, uma magia qualquer ao misturar a massa. Caso contrário, se seguirmos a receita com precisão, pode acontecer isso: um mau filme, que (raro eu fazer isso) aconselho, não vejam! Guardem na memória o Jonh Travolta do Tarantino e não do Scott.
Resumindo: como ocorreu com meu afilhado, Jonh foi impedido de atuar bem. Uma verdadeira injustiça e, claro, o resultado foi lamentável.
Frente a um filme desses, melhor falar em futebol. Por sinal, o time do menino perdeu de seis a zero. Mas, que fique claro, se o juiz não o tivesse expulso indevidamente, a história seria diferente e, talvez, o mundo conhecesse Zé Chulé, melhor que Maradona, melhor que Pelé.
Juiz ladrão! Diretor burro!


terça-feira, 24 de novembro de 2009

Por aí


Como diria o marqueteiro, "divulgar é preciso". Então, vamos lá.
A maravilhosa resenha que minha cúmplice e amigona Jana Lauxen fez de A vida que não vivi, está publicada em três sites muito importantes e legais, O Literatura em foco , Literatsi e o Tertúlia. Além disso, o livro está à venda também na Livraria Cultura, sem dúvida uma das melhores do país.
Para quem está aqui na chuvosa Porto Alegre, ele pode ser encontrado na Palavraria, em pleno Bom Fim, na Vasco da Gama, 165. Aproveita e toma um cafezinho. É um lugar muito legal, que respira e transpira literatura.
Bem, por enquanto é isso!


sábado, 21 de novembro de 2009

Mulheres, mulheres...

Esta semana eu estava sentado em uma lanchonete, com banquinhos altos e enfileirados, azulejos quadriculados na parede e cheiro de gordura. O que havia de mais magro para comer ali era pastel, destes que ensopam o guardanapo cinza que o envolve e passam para as pontas dos dedos. Perfeitos, portanto. Pois estava devorando um desses enquanto olhava o balcão e suas opções ainda mais engordantes, como sanduíche quente de bacon e maionese caseira, quando entrou uma mulher - minto - quando entrou aquilo - melhor ainda - quando entrou tudo aquilo, fazendo até alguns ovos, que estavam em um enorme vidro de conserva, mexerem-se sozinhos. Tudo no lugar entrou em movimento. Foi um verdadeiro frenesi. Eu imediatamente lembrei das aulas de biologia e tentei classificar aquele ser vivo. Não consegui. Imaginei que a coisa não fosse nem uma questão de anatomia/biologia e sim de divindade. Seria mais apropriado. Certamente "aquilo" estava mais perto de ser uma deusa do que - a maior semelhança que encontrei em nosso meio foi essa - uma mulher. Justo quando olhei suas pernas compridas e lindas e definitivamente concluí que não era alguém do sexo feminino, ela própria enterrou, pisou em cima, deu uma cuspida em meu argumento, com uma simples frase:
- Oiiiii. Vê pra mim um sanduíche de pão preto, peito de peru magro e ricota, por favor!
Pronto. Classificada. Era uma "menina".
Sei disso porque certa vez eu estava no interior, em uma cidadezinha bem pequena, próxima a capital, numa vila bem retirada, perto da zona do meretrício, que nada mais é - explico para os mais novos - que o puteiro. Pois íamos de carro e quando o cansaço chegou, resolvemos parar. Distraído, nem percebi que o lugar não era nada amistoso. Minha intenção era tomar uma Coca Light com gelo e limão e comprar um chiclé de morango. Quando entrei no bar, sim, era realmente um bar, olhei para o bodegueiro e fiz o pedido:
- Um martelo duplo, da branca, e uma coxa de galinha frita.
Ele ainda assim me olhou meio desconfiado. Coxa de galinha aquela hora? "Estranho esse cara..." deve ter pensado, mas virou-se e serviu a canha de uma garrafa pet meio amarelada. Pegou a galinha com a mão e me alcançou. Fiz uma cara de nojo e quando ele ia falar, eu disse:
- Magra? Não tem uma com mais gordura?
O bom homem sorriu atrás de seu bigode espesso, eu acho, porque não dava pra ver sua boca, e concluiu que eu era um deles. Todos respiraram no bar, aqueles segundos de expectativa sumiram e as conversas sobre mortes, futebol e mulheres de vida difícil continuaram até que, sem rodeios, minha amiga disse com uma voz fina e meiga:
- Pra mim uma agádois-ó, framboesa, geladérrima, tá?
Acredito que tenha uma coisa implícita entre homens valentões e a humanidade em geral, no que se refere a tolerância. O bigodudo, provavelmente sem o sorriso, virou-se como um gigante para encará-la e, justo quando ia grunir alguma coisa, ouviu novamente:
- Com canudinho!
Não foi o meu mundo que caiu. Foi o chão que desabou. Pensei que ainda era novo pra morrer, ainda mais linchado, mas, claro, conheço as regras que regem a humanidade e fechei os olhos para a primeira pedra. Seria inevitável. Tudo estava em silêncio e ficou assim por intermináveis quinze segundos, até que foi rompido por uma enorme gargalhada contagiante. Todos acompanharam o homem de bigode que, desta vez deu para ver, até dente tinha. E vários, uns quatro ou cinco.
Realmente há um tratado não declarado de tolerância e compreensão. Ele virou-se para a pia, pegou um daqueles pequenos copos canelados, olhou através dele contra a luz, esfregou um trapo encardido antes de enchê-lo com água da torneira e ofereceu para a moça:
- Por conta da casa - disse, e imediatamente encarou-me com um jeito compreensivo. Com um olhar resignado, carinhoso, até. Tomei uns quatro martelos duplos e saí grandão de lá. Fiquei de - e vou - voltar. São meus amigos desde então. Todos eles.
Canudinho! Como não gostar de pessoas que fazem isso? Como?
Na cidade grande a coisa foi diferente. Um dos atendentes da lanchonete saiu as pressas e minutos depois estava pronto o sanduíche de peito de perú, com um pedaço bem pequenino de toucinho. Acho que para não descaracterizar o ambiente, afinal, tudo tem limite.
A Deusa nem reclamou. E ainda fez hummmmm...
Coisas divinas, naturalmente.
Como não gostar? Respondam, como?



domingo, 15 de novembro de 2009

Cálculo infernal

Li uma notícia assustadora. Na verdade, mais estranha do que assustadora: acontece um suicídio a cada quarenta segundos no planeta. Ou seja, o tempo que levarei para chegar ao ponto final desta frase, é o suficiente para que alguém se mate, estatisticamente falando. Pronto, menos um.
Considero isso extramamente misterioso porque desafia o maior instinto que nós, animais, temos, que é o da preservação. Nosso organismo e mente estão programados para defender nossa vida e não para acabar com ela. Isso é fácil de perceber em sentimentos como o medo, que nos salva de poucas e boas, e o paladar, que nos tempos em que catávamos frutinhas pelas estepes, nos poupava de plantas venenosas. Ou seja, pode-se concluir que o ato de exterminar a própria vida vai de encontro a nossa própria natureza. É mais ou menos, grosseiramente falando, como comer sempre o que não se gosta ou fazer absolutamente tudo que nos dá medo, mas nada parecido com algum esporte radical, e sim semelhante a desafiar um traficante armado ou fazer turismo no Iraque, por exemplo.
Se levarmos em conta as afirmações acima, não há lógica alguma no suicídio. E, se falta este "atestado matemático" ou "permissão científica" para que ele aconteça, não é difícil afirmar que a coisa é relativa ao espírito, algo passeando na fronteira do sobrenatural, ou, ainda, porque não dizer, divino.
E aí entra meu susto, ou medo. Se algo tão inato e danoso vence nossos próprios instintos - que é o básico para darmos dignidade ao rótulo de animais, premissa para nos mantermos vivos - sem nenhuma comprovação física, ou racional, digamos, não estamos a mercê de algo muito perigoso?
É sabido que fazemos coisas instintivas que colocam em dúvida a própria civilidade, que usamos de artifícios inacreditáveis para, por exemplo, protegermos nossas crias, que somos capazes de ações e reações agressivas e complexas sem nenhum planejamento, isso tudo para proteger nossas (nem interessando se boas ou más) vidas, provando, assim, que este "dom" animal é muito mais forte que todo o resto, vencendo, sem dificuldades, conceitos, regras, dogmas e, mesmo assim, com toda esta força e grandeza, é superado sem constrangimentos por uma multidão diária de suicidas. Baseado nisso, vou além: não é somente assustador. É um péssimo indício.
Até por uma questão lógica, a descrença que caracteriza um ateu é ampla. Ou seja, de maneira direta, se o sujeito não crê em deus, é óbvio que o mesmo aconteça com o diabo. Alguém que faça juízo calcado somente em fatos, não aceitaria explicações paranormais para nada. "Mostre matematicamente e estará trilhando um caminho de entendimento com um ateu". Pois assim, por um uso simples de evidências, justifico meu susto: se for para perder a incredulidade, creio ser mais sensato crer no diabo. Analisando essa "automatança" friamente, com os dados expostos acima, é mais fácil perceber que existe uma força maléfica superior, maior que nossos próprios instintos, do que uma força boazinha, que usaria esses mesmos instintos para ajudar o próximo. Afinal, não fazemos isso, não somos solidários. Também é de nossa constituição. Por exemplo, não doamos alimentos se estivermos famintos. Nem se estivermos empanturrados. Somos assim, somos a imensa maioria. Somos a humanidade. Somos humanos.
É alarmante. Fosse eu um religioso, usaria a expressão mais dita e necessária para crentes que conheço: "Deus nos acuda!"
Fosse ateu, não diria nada, além de:
- Mais uma cerveja, por favor!


segunda-feira, 9 de novembro de 2009

A vida que não vivi


Quer saber a abalizada opinião da minha amigona e cúmplice Jana Lauxen sobre meu livro? Deem uma olhadinha na Esquina do Escritor.

Quer saber minha opinião sobre diversos assuntos? Espie o 3 AM.

Quer saber mais uma coisa? Estou "todobobo" com isso tudo. Ai, ai...


quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Nem tudo é piada

Assunto sério. Não gosto muito dessa coisa formal, mas, infelizmente, se faz necessário que eu aborde um assunto sisudo neste texto, até porque eles fazem parte de nossa vida e, acho que com um pouco de exagero, regem nossa própria existência. Ninguém decide nada importante com piadas ou uma gracinha qualquer.
Antes, se faz necessária uma confissão: sou a segunda pessoa mais esquecida do mundo. Faço coisas inimagináveis e, pior ainda, às vezes não faço. Coisa normal comigo é esquecer de colocar o cinto, por exemplo, e ficar o dia todo com as calças caindo. Mas isso não é nada, perto do que aconteceu numa tarde dessas, quando esqueci de por as próprias calças e, feliz da vida, fui para frente de casa. Passou um vizinho, acenou meio constrangido, depois outro que abaixou a cabeça e, enfim, uma vizinha que nunca havia me dado sequer um "oi", com um sorriso enorme estampado no rosto lindo. Áh, que bela morena! E tão, como dizer isso? Tão, sei lá, "dadinha"? Mas, enfim, como sou um verdadeiro garanhão fiz o que sei fazer quando uma mulher bela me dá bola: pus as mãos no bolso. Pois é. Ela sorrindo para mim - eu a via em slow - e eu tentando achar onde colocar as mãos. Duas. E ainda por cima tenho duas mãos e nenhum lugar para guardá-las. Evitei olhar para baixo, evitei lembrar das mãos, evitei ficar vivo mas tudo em vão. Lá estava eu, com aquelas coisas cheia de dedos sem um lugar certo pendurado em meus braços, de cuecas, sendo observado pela morena mais linda das redondezas. O que fazer? Bem, fiz o que um homem de moral faria: corri para dentro. E dei de cara na madeira fria. Adivinha? Eu havia fechado a porta com a chave para o lado de dentro, claro. Não poderia ser diferente. Sou uma pessoa normal, como qualquer outra, e isso acontece com todo mundo.
Porém, nem tudo estava perdido. Apesar da situação toda, pelo menos um dos problemas eu resolvi: onde colocar as mãos. Comecei a roer das unhas. Áh, destino, você não contava com minha astúcia. Me senti seguro por alguns instantes, quando fiquei agachado, abraçando os joelhos, com as duas mãos na boca, roendo, como um rato, uma parte de meu próprio corpo. Isso só pode trazer segurança. Certamente ninguém se aproximaria com medo da lepstopirose.
Organizei o pensamento, precisava agir antes que alguém chamasse o pessoal da "carrocinha" ou do departamento de resgate de animais exóticos. A morena em slow ainda estava lá, agora acompanhada por algumas amigas, todas felizes, rindo muito. As unhas terminando e meu tempo também. Olhei para o meu dedinho mingo da mão esquerda, só restava ele. Senti pânico. Minha vida estava acabando junto com minhas unhas. Olhei a porta fechada, olhei para a pequena multidão na rua, suei gelado, tentei lembrar de alguém que eu pudesse pedir para me abastecer de chocolate no presídio, roí meu último pedacinho e... Vitória!
Lembrei que a porta não trancava sozinha, bastava abri-la.
Ainda ouvi algumas risadas mas corri para dentro feliz com minha memória. Pôxa, ela me tirou de uma situação e tanto e - quer saber? - nem é tão ruim assim. Mais: a morena também não era um exagero de bonita. Meio "infantilóide", até.
Que? E isso não é assunto sério? Oras... Áh sim, quem é a pessoa mais esquecida do mundo? Não sei, esqueci!